No sentido de esclarecer os Companheiros Trabalhadores ou, ao menos, mostrar nosso ponto de vista sobre as armadilhas e as falcatruas das ilusões que estão bombardeando cotidianamente os Trabalhadores, seus familiares e a sociedade em geral, reproduzimos mais dois artigos/análises/pesquisas que podem servir como orientação e denúncia para que a CLASSE TRABALHADORA não caia no conto do vigário.
Acompanhem nas matérias abaixo.
O SINDICATO SOMOS NÓS NOSSA FORÇA NOSSA VOZ!

EDEMILSON GONÇALVES
Presidente SINTRACON PARANAGUÁ.
FORA DO SISTEMA: O RETRATO DOS TRABALHADORES INFORMAIS BRASILEIROS
Atualmente cerca de 40 milhões de brasileiros ocupam empregos informais, e esse fenômeno constitui um dos principais obstáculos ao pleno funcionamento do mercado de trabalho no país

O Brasil tem mostrado francos sinais de recuperação no mercado de trabalho, alcançando taxas de desemprego próximas às mínimas históricas registradas em 2012. No entanto, enquanto avançamos na geração de empregos, a informalidade permanece resistente e robusta, revelando desafios antigos e novos.
Atualmente cerca de 40 milhões de brasileiros ocupam empregos informais, e esse fenômeno constitui um dos principais obstáculos ao pleno funcionamento do mercado de trabalho no país. Após uma queda significativa entre os anos 1990 e meados da década de2010, a informalidade oscilou, mas permaneceu em níveis consideravelmente superiores aos de países desenvolvidos, atingindo atualmente cerca de 38% do total de ocupados.
Esse quadro de informalidade tem diversos efeitos adversos: restringe o acesso dos trabalhadores à proteção da seguridade social e a uma maior previsibilidade de renda, além de impossibilitar a oferta de trabalho decente. Em uma perspectiva mais ampla, a informalidade compromete diretamente a produtividade da economia; empresas informais têm maior dificuldade de acessar crédito, investem menos na qualificação de seus trabalhadores e enfrentam altas taxas de rotatividade, fatores que limitam o acúmulo de capital humano e mantêm níveis baixos de eficiência.
Assim, é possível compreender como a informalidade perpétua um ciclo vicioso: firmas contratam sem registro para fugir dos encargos trabalhistas, especialmente quando avaliam que o retorno produtivo da formalização é baixo, mas o resultado é uma economia menos eficiente. Ou seja, os efeitos da informalidade vão desde o âmbito individual até uma escala econômica mais ampla, na qual toda a sociedade sai perdendo, conforme mostra o livro O futuro do Brasil, organizado por Fabio Giambiagi.
Frente a esse cenário, o emprego informal surge como a única alternativa diante da exclusão do mercado formal. De fato, a informalidade pode inclusive funcionar como uma válvula de escape em tempos de crise econômica, com desemprego elevado, proporcionando alguma fonte de renda nesses períodos.
Por outro lado, o trabalho informal também surge como uma alternativa que oferece flexibilidade para quem precisa conciliar diversas responsabilidades, como o cuidado com filhos. Independentemente das razões, os efeitos adversos estão evidentes, tornando urgente compreender quais fatores influenciam o acesso ao mercado formal e como políticas públicas podem atuar para reduzir essas restrições.
Em um país onde ainda não está claro para muitos se vale a pena se formalizar, tanto empresas quanto trabalhadores acabam presos em um ciclo de baixa produtividade. Para mudar isso, não basta fazer campanhas pedindo que todos se regularizem. Um estudo dos pesquisadores Daniel Haanwinckel e Rodrigo Soares mostra que, entre 2003 e 2012, o que mais contribuiu para o aumento da formalização no Brasil foi o avanço da educação.
Pessoas com mais anos de estudo, que também entendem melhor seus direitos e deveres, são absorvidos por firmas maiores e mais produtivas, que operam no setor formal devido aos custos crescentes da informalidade relacionados ao com o tamanho da empresa. Tal constatação reforça a importância de investir em educação básica e técnica como parte central de qualquer política para reduzir a informalidade. Além disso, é preciso mostrar com mais clareza as vantagens de estar formalizado, simplificar os processos de registro e garantir uma fiscalização eficiente, que ajude a combater fraudes e torne a regra do jogo mais justa para todos.
Assim, para entender melhor a dinâmica da informalidade e as políticas para enfrentá-la, recentemente lançamos uma publicação que traz evidências globais sobre as políticas relacionadas ao mercado de trabalho e seus impactos aqui no Brasil.
Outro grupo relevante para a discussão da formalização são os microempreendedores no mercado informal. O regime do microempreendedor individual (MEI) foi criado justamente para facilitar a legalização desses negócios, oferecendo benefícios como auxílio-doença, auxílio-maternidade, aposentadoria e maior acesso a linhas de crédito ao emitir notas fiscais e realizar transações comerciais formais. Contudo, no Brasil, ainda mais da metade dos MEIs apresenta inadimplência, segundo o Ipea.
Essa desconexão entre as promessas do programa e a experiência dos empreendedores já foi constatada em outros países, como na Índia, onde um estudo de 2018 mostrou que, mesmo com incentivos financeiros, muitos empreendedores resistem à formalização por não perceberem vantagens concretas. Esses casos indicam a necessidade de reforçar as vantagens da formalidade, demonstrando de forma clara os benefícios que ela oferece ao empreendedor individual.
Para romper com o ciclo da informalidade, é fundamental reconhecer que ela não é apenas uma escolha individual, mas um sintoma de um mercado de trabalho com estruturas institucionais complexas. A solução está na implementação de reformas que tornem a formalização mais acessível e atrativa, reduzindo entraves burocráticos e fortalecendo os mecanismos de proteção social.
É necessário um redesenho institucional que demonstre de forma concreta os benefícios de estar na legalidade. Somente assim poderemos construir um mercado de trabalho mais justo, produtivo e sustentável, garantindo melhores condições de vida para toda a população e promovendo o crescimento econômico do país.
André Mancha – É professor-assistente na FEA-USP, doutor em Economia pelo Insper, mestre em Economia pela EESP-FGV e coautor da série de publicações sobre Mercado de Trabalho da JOI Brasil – iniciativa da J-PAL LAC.
Livia Gouvêa Gomes – Especialista da Divisão de Proteção Social e Mercado de Trabalho do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) no Brasil. Doutora em Economia pela PUC-Rio e coautora da série de publicações sobre Mercado de Trabalho da JOI Brasil – iniciativa da J-PAL LAC.
Publicado e atualizado em 07/11/2025 pelo portal da revista EXAME.
https://exame.com/brasil/fora-do-sistema-o-retrato-dos-trabalhadores-informais-brasileiros/
VOX-CUT: TRABALHADOR QUER CLT E DIREITOS, MAS PRECARIZAÇÃO EMPURRA À INFORMALIDADE
Pesquisa encomendada pela CUT e a Fundação Perseu Abramo à Vox Populi atualiza como se sente a classe trabalhadora no mundo do trabalho e desmonta a tese das maravilhas do empreendedorismo e de que a CLT acabou.

Pesquisa Vox Populi encomendada pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), Fundação Perseu Abramo e as demais centrais sindicais aponta que mais da metade dos trabalhadores que se identificam como autônomos ou empreendedores quer ter carteira de trabalho assinada, com todos os direitos que ser um trabalhador CLT garantem. 56% dos que hoje se declaram autônomos e já tiveram carteira de trabalho assinada afirmam que, com certeza, gostariam de voltar a ser celetista.
Esse apontamento refere-se a apenas um dos vários recortes da ampla e inédita pesquisa realizada com 3.850 pessoas, presencialmente, em todo o Brasil, entre maio e junho de 2025.
O objetivo dessa pesquisa inédita denominada “O Trabalho no Brasil” é atualizar o conhecimento sobre o que pensa a classe trabalhadora brasileira, assalariados com e sem carteira assinada, autônomos, empreendedores, servidores públicos, plataformizados, desempregados e aposentados. Foram entrevistados PEAs (População Economicamente Ativa) e Não PEAs, em entrevistas pessoais e domiciliares.
A pesquisa foi desdobrada em vários eixos, para sistematização e análise em parceria com o DIEESE, com o objetivo de captar e entender o cenário real da classe trabalhadora e do mundo do trabalho atual.
Os eixos abordaram a questão do empreendedorismo e dos autônomos (como o trabalhador entende e se classifica nesse universo), como o trabalhador vê as condições de trabalho, a percepção atual sobre o emprego, jornada de trabalho, prioridades para ação sindical, políticas públicas voltadas ao trabalhador. Um dos destaques do levantamento aponta qual é a visão do trabalhador sobre a importância da formação profissional, da saúde e da segurança.
No recorte sobre a questão do empreendedorismo e trabalho autônomo, os números da pesquisa Vox Populi feita para a CUT revelam que, ao contrário do que apontam levantamentos recentes que reduzem a importância do trabalho formalizado e da CLT, mais da metade dos trabalhadores querem ter vínculo formal de trabalho com direitos garantidos pela Consolidação das Leis do Trabalho, porém, acabam caindo no que o estudo denomina de “empreendedorismo de necessidade”.
Na avaliação do presidente nacional da CUT, Sérgio Nobre, a pesquisa mostra que autodeclarados empreendedores e autônomos são empurrados para modalidade e a informalidade pela precarização do trabalho formal. Entrevistados apontaram que os empregadores pagam baixos salários, fazem muitas e, por vezes, inadequadas exigências de qualificação, além de impor jornadas extensas.
Nesse primeiro momento, serão divulgados dados relativos ao recorte empreendedorismo e autônomos e a relação com o trabalho formal. A pesquisa será debatida em todos os entes da CUT, especialmente os sindicatos de base. Também será levada ao governo, Legislativo, Judiciário, Academia, movimento social.
Seguem alguns dados e percepções do recorte da questão empreendedorismo e trabalhadores autônomos:
• A preferência por ser CLT ou ser empreendedor está ligada a uma estratégia de sobrevivência. E ao contexto da vida.
• O trabalho autônomo responde às necessidades imediatas do trabalhador, que não consegue pensar no futuro, na previdência, na falta de direitos, por imposição da necessidade de sobrevive
O trabalho é importante na vida das pessoas (todos os grupos)?
• 7 em cada 10 brasileiros consideram o trabalho fundamental em suas vidas.
• 9 em cada 10 o veem como espaço de aprendizado.
• 9 em cada 10 associam à valorização pessoal.
• 8 em cada 10 o reconhecem como fonte de propósito.
Percentual de concordância com as frases sobre o significado do trabalho (por categoria profissional):

Qual a avaliação sobre as condições de trabalho ?
• Há diferenças entre percepções e a realidade concreta vivida pelos trabalhadores.
• 73% consideram ótima, boa ou regular a sua ocupação atual (3 em cada 4); 46,9% avaliam as condições de trabalho como regulares (maior frequência).Trabalhadores de plataformas e autônomos apresentam avaliação mais negativa, indicando vulnerabilidade e ausência de direitos.
• Em suas ocupações, no seu trabalho específico (PEA):
• 55% relatam ansiedade por rotina de trabalho;
• 58% afirmam que o trabalho consome tempo excessivo;
• 56,5% avaliam que o mercado oferece poucas oportunidades;
• 39,5% percebem poucas possibilidades de crescimento.
Quais os principais problemas/obstáculos para obter um bom emprego (PEA)?
• Apesar da alta valorização do trabalho e de avaliação das condições de trabalho regulares, boas e ótimas elevadas, também são destacados problemas.
• Principais: salários baixos (44,5%), exigências excessivas (38,7%), baixa valorização (25,5%); Baixos salários e instabilidade de renda é bastante citado na pesquisa [provocam insegurança, endividamento, insegurança alimentar e problemas de saúde mental].
• Outros obstáculos: 16,6% indicam sobrecarga de trabalho; 12% relatam jornadas longa; 7,6% percebem instabilidade de emprego
• Mais de 70% dos brasileiros/as se preocupam com emprego; No setor privado com carteira assinada: 36,8% se preocupa muito com o desemprego e 35% se preocupa um pouco. [Mesmo com baixa taxa de desemprego (<6%), há insegurança].
• 56,5% declararam que o mercado de trabalho brasileiro não oferece boas oportunidades de emprego.
• 39,5% declararam que há poucas oportunidades de crescimento profissional para os brasileiros e na área em que a pessoa atua, 29,6% disseram que há poucas oportunidades de crescimento profissional; entre empreendedores avaliam que tem poucas oportunidades e entre os que se declararam trabalhadores autônomos o percentual é de 31%.
• Expectativa de estabilidade é elevada na preferência por empregos formais, enquanto o empreendedorismo é valorizado por autonomia e flexibilidade.
O que é um bom emprego? (todos os entrevistados)
• Avaliação do “bom emprego”: salário digno, estabilidade de renda, flexibilidade de horário, fazer o que gosta/trabalho com sentido.
• Ter oferta de bons empregos e estar empregado (estabilidade) são altamente valorizados.

Percepção sobre preferências nacionais e realidade: ou autônomo/empreendedor
• 53,4% das pessoas entrevistadas avaliam que os brasileiros preferem ser empreendedores; 40,1% de que os brasileiros desejam carteira assinada (todos os entrevistados).
• Aqueles que destacam o empreendedorismo com melhor forma de ocupação valorizam autonomia e flexibilidade.
• Entre trabalhadores do setor privado com carteira: 40,9% com certeza gostaria de ser empreendedor;
• Entre trabalhadores do setor privado sem carteira: a maioria são MEIs e PJ; cerca de 56% dos trabalhadores sem carteira já tiveram experiência anterior no regime CLT; 59,1% afirmaram que com certeza voltariam a ter carteira de trabalho assinada, enquanto 30,9% disseram que poderiam retornar.
• Entre as pessoas fora do mercado (mulheres em atividades de cuidado não remunerado e estudantes) que gostariam de retornar: 52,2% e 57,1% preferem retornar ao mercado de trabalho com carteira assinada (CLT).
• Entre os que se declararam trabalhadores autônomos: 55,3% poderia voltar ou com certeza voltaria a ter carteira assinada; 39,1% não voltaria a ter carteira assinada.
• Entre os que se declararam empreendedores: 58,9% com certeza não voltaria a ter carteira assinada, enquanto 32,7% poderia voltar ou com certeza voltaria a ter carteira assinada.
Qual o motivo para ser trabalhador autônomo/empreendedor? (entre os que se declararam empreendedor e autônomo)
• A situação anterior dos empreendedores e trabalhadores autônomos era: 35,7% carteira assinada anteriormente; 21,7% estavam desempregados, sendo 59,8% por um período entre 2 e 5 anos; 19,9% sempre estiveram na condição de empreendedor ou autônomo.
• Razões para ser empreendedor/trabalhador autônomo:
• Precisava trabalhar para ajudar a família/complementar a renda: 26,6% trabalhadores autônomos; 19,4% empreendedores;
• Precisava ganhar mais dinheiro/ na minha área os salários são baixos: 16,9% trabalhadores autônomos; 19,9% empreendedores;
• Precisava de um trabalho com flexibilidade de horário: 13,6% trabalhadores autônomos; 17,6% empreendedores;
• Não conseguia arranjar emprego na minha área de formação: 14,3% trabalhadores autônomos; 12,8% empreendedores;
• Não gosto de ter patrão: 9,8% trabalhadores autônomos; 17% empreendedores.
Qual o perfil dos empreendedores e autônomos entrevistados?
• Empreendedorismo de necessidade – principais atividades dos entrevistados que declararam ser empreendedores ou trabalhadores autônomos:
1.Ambulante ou sacoleiro;
2.Trabalhador na construção civil (pedreiro, pintor, encanador, reformas, etc.);
3.Cabeleireiro(a) ou barbeiro(a);
4.Comerciante;
5.Cozinheiro(a) (marmitas, doces, salgados, pães, bolos, etc.);
6.Artesão;
7.Técnico em TI (manutenção, conserto de computadores, hardware, etc.);
8.Manicure, pedicure, depiladora;
9.Mecânico (conserto de carros e motos);
10.Faz-tudo ou “marido de aluguel”;
• Empreendedorismo de necessidade: associado à informalidade, baixos investimentos iniciais e maior vulnerabilidade econômica (diferente do empreendedorismo de oportunidade, que identifica nicho de mercado e busca inovação).
Qual a pauta dos autônomos/empreendedores?
• Entre os insatisfeitos e muito insatisfeitos (13%), os maiores problemas são:
• Falta de estabilidade financeira (64,7%).
• Falta de benefícios (10%).
• Trabalha muito sem folga (9,4%)
Saudade da CLT
Dos pesquisados que se declaram 49,1% gostariam de voltar a ser CLT (porque teriam mais direitos e estabilidade)
• Dos que se declaram autônomos, 55% dizem que, certamente, voltariam a ser CLT (por que teriam mais direitos e estabilidade)
• As pessoas se autodeclaram empreendedores e autônomos, o que abrange desde o ambulante que, até aquele que tem algum capital.
• como tem esta difusão anti-CLT, na sociedade o ambulante acha que é empreendedor, esse declara como empreendedor.
• a cada seis pessoas que são autônomas, só uma acha que é empreendedora.
• o que as une os dois – autônomos e empreendedores pesquisados, é o fato de não ser CLT e que tem uma renda
• o assalariado tem um patrão que o paga o é diferente de uma pessoa que tem um capital.
• pessoa que faz trabalho de “marido de aluguel”, querem dizer que é empreendedor como uma empresa.
Método
• Pesquisa foi feita com 3.800 entrevistados presencialmente – maio e junho, em todos os estados brasileiros.
• Título pesquisa: O TRABALHO NO BRASIL
• Tem recortes conforme o público, carteira, sem carteira, trabalhadora doméstica, conta própria, plataformas,
• Visa ver a percepção do trabalhador sobre o mundo do trabalhado e a percepção com trabalhador sobre o seu trabalho.
• Entrevistou a população ativa e inativa PEA e não PEA, de todos os extratos
Escrito por VANILDA OLIVEIRA, redação e comunicação da Central Única dos Trabalhadores, e publicado em 10/11/25.
https://www.cut.org.br/noticias/vox-cut-trabalhador-quer-clt-e-direitos-mas-precarizacao-empurra-a-informalidade-1bc7





