
Xenofobia americana durante a Copa anda em paralelo com subserviência da FIFA ao governo de Trump.

A seleção do Haiti se viu forçada pela FIFA a mudar o design de seus uniformes, considerado demasiado “político” pela FIFA. A fabricante de roupas esportivas, a colombiana Saeta, que criou os uniformes com uma representação da batalha final da Guerra da Independência do Haiti em 1803, disse em comunicado que “não havia sido concebido como uma declaração política”, mas como um “tributo aos homens e mulheres que contribuem todos os dias para o futuro do Haiti”.
A decisão é mais uma das controvérsias que tomaram o foco das notícias sobre a Copa do Mundo de 2026, que está acontecendo em território americano, sob o governo Trump, no México e no Canadá, no lugar do esporte propriamente dito, e sempre marcadas pela xenofobia e racismo.
Notícias de membros de delegações de outros países, jornalistas, torcedores, jogadores, funcionários que estão enfrentando longos interrogatórios, deportações e revogações de autorizações por imposição do governo dos EUA estão ofuscando qualquer notícia positiva sobre o evento, com pouca ou nenhuma reação da FIFA.
O árbitro da Somália, Omar Artan, que foi deportado para a Turquia com base em uma ordem executiva assinada por Trump proibindo cidadãos de uma lista de 12 países do sul global, passou por 11 horas de interrogatório antes de expulso dos EUA.
Considerado o melhor árbitro do continente africano e escolhido pela FIFA apitar jogos da Copa do Mundo de 2026, mesmo com passaporte diplomático, visto de entrada válido e fazer parte da lista da FIFA de 52 árbitros da competição, ele teve sua entrada barrada pelos americanos.
O presidente da FIFA, Gianni Infantino, reagiu aconselhando as pessoas indignadas com a deportação a “relaxarem”, acrescentando que, apesar de “lamentável”, a FIFA não pode ditar aos governos quem estes permitem entrar em seus países, mas disse estar atuando “nos bastidores”.
Foi Infantino que em dezembro do ano passado concedeu a Trump um “Prêmio da Paz da FIFA”, durante o sorteio da Copa do Mundo em Washington. Desde então, o presidente norte-americano atacou embarcações no mar do Caribe e Pacífico matando mais de 200 pessoas, sequestrou o líder venezuelano Nicolás Maduro, começou uma guerra contra o Irã, além de apoiar a limpeza étnica de palestinos em Gaza e libaneses no sul do Líbano, cometidas por Israel. Um prêmio de “paz” inédito, sem que a FIFA tenha divulgado o processo de seleção que escolheu o homenageado.
A premiação da FIFA causou desconforto entre funcionários de médio e alto escalão da instituição esportiva que descreveram a situação como um “profundo embaraço”. Na época, um dos funcionários, que pediu para não ser identificado disse que a Copa do Mundo nos EUA seria um período “muito delicado” e “difícil”, já prevendo a repressão americana contra estrangeiros.
TORCEDORES DO MARROCOS TIVERAM VISTOS NEGADOS
Quarenta torcedores do Marrocos tiveram seus vistos negados pelos americanos para assistir a Copa, após gastarem milhares de dólares com os ingressos para partidas e reservas em hotéis. “Nenhuma razão clara foi dada para as recusas de visto”, disse Azzedine Al Attaraoui, chefe da Associação Esportiva de Fãs da Seleção Marroquina, que acrescentou que só dois dos 42 torcedores tiveram seus vistos respeitados.
“Só queremos apoiar a nossa seleção”, disse. “Alguns compraram ingressos para até três partidas em torno de US $ 500 cada, totalizando US $ 1.500, além de taxas de visto de 1.800 MAD”. Al Attaraoui agora pede para a FIFA intervenha para a obtenção dos visto e pediu ajuda para o governo do Marrocos para facilitar a viagem do grupo.
SELEÇÃO DO IRÃ PROIBIDA DE SE HOSPEDAR NOS EUA
A seleção do Irã, país ao qual o presidente americano declarou guerra ao bombardear em 28 de fevereiro alvos civis e militares no país, matando 168 crianças em uma escola, na cidade iraniana de Minab. Trump proibiu que o time iraniano durma em território americano e os iranianos só poderão entrar nos EUA para jogar e deverão sair dos EUA no mesmo dia, tendo que se hospedarem no México.
Os americanos também proibiram a entrada da torcida do Irã, os que residem nos EUA, que compareçam aos estádios. A FIFA tem como regra que 8% dos ingressos seriam para torcedores de países, mas Trump proibiu para a torcida do Irã.
JOGADORES BARRADOS
O jogador da seleção da Suíça, Breel Embolo, que é negro, chegou a ser impedido de entrar nos EUA, mas posteriormente um recurso apresentado pela Suíça reverteu a arbitrariedade. Principal atacante do time suíço, ele foi barrado e colocado sob uma “revisão de visto”, depois que autoridades americanas alegaram ter preocupação com seu “registro criminal passado”.
O ‘registro’ não passava de uma pequena infração com uma multa suspensa. Referente a um episódio de 2023 em que foi acusado de fazer ameaças, o que levanta questões sobre a natureza do caso, considerando que Embolo é negro e tem um nome africano.
Após o recurso, o próprio Departamento de Estado dos EUA, em seu site, confirmou que Embolo estaria autorizado a entrar, por seu “crime” não ter uma pena de prisão de mais de 6 meses ou ter envolvimento com drogas.
Outra situação semelhante foi a da equipe do Iraque. O craque iraquiano Aymen Hussein, que marcou o gol que classificou sua seleção, ficou detido por autoridades americanas de imigração e teve que se submeter a 7 horas de interrogatório antes de ter sua entrada autorizada. Já o fotógrafo da equipe, Talal Salah, não teve tanta sorte e, depois de interrogado durante mais de 10 horas, teve sua entrada negada e foi deportado.
Fonte: https://horadopovo.com.br/xenofobia-americana-durante-a-copa-tem-paralelo-com-subserviencia-da-fifa-ao-governo-de-trump/




